Jornal da UEM

O site está em processo de atualização. Alguns links não estão funcionando corretamente.

ISSN: 2238-5010 - Jornal da UEM nº 115 - Maio/2014

denizli evden eve nakliyatbursa evden eve nakliyatburdur evden eve nakliyatbolu evden eve nakliyatbitlis evden eve nakliyat
Estou em: Home Jornais Jornal 64 - Março de 2007 A Esquerda traça um novo mapa político na América Latina
A Esquerda traça um novo mapa político na América Latina Imprimir E-mail
Jornal 64 - Março de 2007


Legitimados pelo jogo eleitoral, governos de vocação socialista chegam ao poder e esboçam diferentes caminhos para o continente

Tereza Parizotto

Após um longo período de hegemonia neoliberal, o que estamos presenciando hoje é o redesenho do mapa político da América Latina graças a emergência de governos de esquerda. No esforço para decifrar as mutações em curso, o Jornal da UEM conversou com três historiadores: Sidnei Munhoz, Luis Felipe Viel e Reginaldo Dias.

Embora afirmem que a América Latina não possa ser analisada sob uma única lente, uma vez que sua realidade não é homogênea, os três concordam que há pelo menos um denominador comum capaz de explicar a ?esquerdização? no continente, cuja origem estaria alicerçada nas desastrosas conseqüências trazidas pelo modelo neoliberal erguido sob a hegemonia do capital financeiro.

Assim, a vitória nas urnas de Lula no Brasil, Hugo Chávez na Venezuela, Néstor Kirchner na Argentina, Tabaré Vázquez no Uruguai, Michelle Bachellet no Chile, Rafael Correa no Equador e Evo Morales na Bolívia indicaria, no mínimo, que a população está à procura de alternativas de governo, uma vez que o receituário neoliberal se mostrou incapaz de gerar políticas eficientes de inclusão, deixando à margem as maiorias exploradas.

Na origem, esse movimento toma corpo com o fim do socialismo soviético e a entrada no mundo unipolar, quando se estabeleceu, a partir das elites dos governos centrais, o ideário do Consenso de Washington, que falava de um mundo sem conflitos e mais igualitário. Segundo o professor Sidnei Munhoz, o Consenso acabou esbarrando nas próprias bases, ou seja nos rígidos princípios de estabilidade econômica, na redução do papel do Estado e nos ajustes estruturais que atendiam os interesses das elites dos países capitalistas ?avançados?. ?Esse receituário amargo produziu sensíveis quedas dos indicadores sociais, desnacionalizou as economias, comprometeu os direitos trabalhistas e gerou mais desemprego, violência e miséria?, diz o professor.

Ruptura - A reação ecoou nas urnas e veio quase em cadeia, ainda que com roupagens diferentes entre os países que formam o continente. No Brasil e na Argentina, conforme explica Felipe Viel, a saída para a crise se deu por caminhos institucionais e políticos sem representar ruptura, com partidos já consolidados assumindo o controle do Estado dentro de um jogo previsível de alternância de poder. Nem Lula, nem Kirchner pautaram um enfrentamento direto com as oligarquias do país.

Na Venezuela e na Bolívia, o panorama é outro. Hugo Chávez e Evo Morales encontram na estatização a base de equilíbrio para fortalecimento das suas nações. Chávez é um personagem controverso, que debutou na política de forma autoritária, com uma tentativa de golpe de estado. Porém,  ele ganhou terreno à medida que as forças políticas tradicionais, a despeito da enorme riqueza do País, gerada a partir das reservas de petróleo, se mostram ineficientes para incorporar as maiorias exploradas.
No caso de Morales, a mola propulsora pode ser o elemento étnico, que remete a um tipo de exploração que vem desde os tempos de colonização espanhola, como lembra Reginaldo Dias. ?Não é por acaso que os bolivianos elegeram um presidente de origem indígena?. O resultado nas urnas provavelmente traduz um sentimento de inconformidade de uma nação que, reconhecendo-se mestiça, busca resgatar sua identidade cultural, rejeitando a dominação estrangeira. Traços semelhantes também são percebidos no Equador ou mesmo Peru, onde o grupo liderado pelo nacionalista Ollanta Humala se não venceu as últimas eleições, chegou bem perto.

Em uma tentativa de síntese, a ?esquerdização? na América Latina pode ser entendida como luta por soberania, integração, democracia e justiça social. Resta saber se a esquerda que emerge aqui guarda semelhança com a aquela gestada pela Revolução Soviética. ?Essa esquerda não pode ser explicada por velhos paradigmas?, responde Reginaldo Dias. ?Estão em evidência governos atuando em sincronia na efetivação de políticas de inclusão social, porém dentro de marcos que não rompem com o capitalismo. Afinal, estatização não significa socialização. Uma ruptura exigiria: predominância da propriedade social sobre a privada; planejamento público orientado à economia; e controle público sobre a coisa pública?, reforça ele.

Os traços em comum entre essas duas vertentes, ainda segundo Dias, dizem respeito à incorporação das massas à política e aos bens sociais. Também guardam semelhanças os discursos nacionalista e antiimperialista, ainda que o imperialismo possa se personificar em novos atores. Para a Bolívia, no âmbito global os Estados Unidos e sua política intervencionista fazem o papel de país imperialista.

Mas no cenário regional, essa posição é ocupada pelo Brasil, maior investidor estrangeiro naquele país. Se a relação é a mesma, a diferença pode ser sentida no caminho escolhido para solucionar a equação: ?a via diplomática, com respeito mútuo à soberania nacional?, frisa Felipe Viel.

Unidade - Esse é um episódio importante na história recente da América Latina, e indica que a integração dos países é o passo imprescindível para o desenvolvimento sustentável com justiça social. Da unidade dos países depende, em grande medida, a afirmação desse novo modelo de gestão. Afinal, para um governo de tendência socialista chegar à presidência de um país capitalista não é o suficiente para empreender as políticas de justiça social e soberania. Principalmente porque permanecem instaladas as instituições tradicionais, com suas relações de força, conforme diz Reginaldo Dias, lembrando que o diálogo interno e permanente com a sociedade também é necessário.

?O grande desafio dos novos governos é gerar políticas eficientes de inclusão social. Em meio aos embates, tensões e resistências das velhas e novas oligarquias que continuarão resistindo às transformações nesse cenário?, opina Sidnei Munhoz. Para isso, os governos precisam de uma base de apoio sólida até conseguir empreender as reformas que levem efetivamente a melhorias nas condições de vida da população. ?Esse engajamento é necessário, até porque o resultado das reformas não aparecerão de uma hora para a outra?, completa o professor. Munhoz dá destaque ao presidente Chávez que não possui o mesmo  enraizamento social presente em outros governantes e  no lugar de expandir a democracia concentrou o poder nas mãos do grupo dirigente. ?Resta saber como o povo e governo atuarão quando conflitos reais se tornem inevitáveis? adverte o professor.

Felipe Viel também defende que o futuro do continente depende da atuação dos novos atores políticos e à manutenção das regras democráticas. Para ele, a atuação de Chávez, ainda que se dê dentro da legalidade do jogo político, deixa uma grande interrogação no ar.

Além disso, na Venezuela e nos demais países, não se sabe se os partidos políticos, que foram sacudidos por esses fenômenos eleitorais, conseguirão se articular e, democraticamente, encontrar possibilidades de voltar ao poder. A História dirá!.

 

Online

Nós temos 17 visitantes online

Estou em: Home Jornais Jornal 64 - Março de 2007 A Esquerda traça um novo mapa político na América Latina